terça-feira, 8 de novembro de 2011

MUSICAS INDIGENAS E CELTAS: A Era de Aquários

MUSICAS INDIGENAS E CELTAS: A Era de Aquários: O QUE NOS ESPERA NA ERA DE AQUÁRIO? Vanessa Tuleski Há algum tempo, você vem ouvindo falar a respeito da Era de Aquário. Provavelmente, e...

A Era de Aquários


O QUE NOS ESPERA NA ERA DE AQUÁRIO?

Vanessa Tuleski

Há algum tempo, você vem ouvindo falar a respeito da Era de Aquário. Provavelmente, escutou opiniões que, a partir desta Era, seremos mais evoluídos, que a humanidade entrará em uma nova fase, que acabarão todos os problemas que nos assolam. Seria isto verdade? Além disso, quando, afinal, começaria a tão falada Era de Aquário? Vamos tentar responder a estas duas perguntas através deste artigo.

Antes, é necessário entender o que é uma ‘era’. O pólo celeste (extensão imaginária do pólo terrestre) executa um movimento circular, de leste para oeste, que leva 25.794 anos (este número ainda não é um consenso entre os estudiosos) para voltar ao ponto de onde saiu. À medida que vai descrevendo este movimento, há um deslocamento em relação à constelação que marca o equinócio de primavera no Hemisfério Norte. Assim, há cerca de 2 mil anos, era a constelação de Áries que inaugurava o equinócio de primavera. Agora é Peixes que está lá. Breve, será Aquário (note que o zodíaco é percorrido de trás para a frente). Astronomicamente, portanto, a primavera no Hemisfério Norte está se iniciando com a constelação de Peixes, embora astrologicamente o signo que represente a primavera continue a ser Áries.

 Dividindo-se 25.794 anos por doze signos, podemos dizer que cada era astrológica duraria cerca de 2.149 anos. Agora vamos tentar responder à pergunta: a Era de Aquário já começou, e, se não, quanto tempo faltaria para ela começar? A resposta para esta pergunta é controversa. Há estudiosos que dizem que a Era de Aquário já começou, e outros acreditam que ela se iniciará daqui a cerca de 150 anos. Entretanto, embora haja discussões a respeito de quando a Era de Aquário irá de fato começar, a maioria dos astrólogos crê que estejamos em uma fase de transição entre a Era de Peixes e a de Aquário, ou seja, que ainda estejamos vivemos de acordo com todos os padrões da Era de Peixes, mas já mesclados com os desafios da próxima Era.

 É necessário entender um pouco o que é cada Era para que possamos falar da do que significa esta transição, e para onde estamos indo. Cada Era costuma ter símbolos que atingem a máxima importância durante a sua vigência. Assim, por exemplo, durante a Era de Touro (aproximadamente, entre 4000 e 2000 anos antes de Cristo), o touro foi adorado no Egito, representado como o boi Ápis e como o culto ao minotauro (criatura com cabeça de Touro e corpo humano). Na Era seguinte, Áries, o cordeiro surgiu em inúmeras manifestações religiosas (como Amon-Rá, o deus com cabeça de cordeiro, ou o mito do velocino de ouro).  E, na Era de Peixes, naturalmente o peixe se tornou o animal sagrado. Cada Era tem também seus ‘avatares’, que seriam figuras históricas que concentrariam todas as características que elas carregam. Moisés, por exemplo, que guiou o povo judeu através do deserto teria sido um avatar da Era de Áries, bem como Cristo teria sido um avatar da Era de Peixes. 

 Cada Era traz à tona todas as questões do signo que o representa, mas também do signo que se opõe a ele. Assim, por exemplo, a Era de Touro conheceu o represamento (Touro, signo do elemento Terra, relacionado a forma) das águas do Nilo (Escorpião, signo do elemento Água), e sabe-se que este fato teve fundamental importância no desenvolvimento da civilização egípcia. Foi nesta Era que surgiram as religiões ligadas à terra, e que o ser humano começou a se estabelecer, deixando de ser nômade. Conflitos de dominância e poder (típicos do eixo Touro e Escorpião) estiveram presentes durante toda esta Era.

  A Era de Áries foi caracterizada por guerras, disputas e pelo surgimento de deuses mais masculinos (Áries é um signo de polaridade masculina), em oposição às deusas que predominavam até então. Nesta época também se desenvolveram a cultura e as artes (Libra, signo oposto a Áries), e surgiu o budismo, uma religião tipicamente libriana, por pregar o ‘caminho do meio’.

 A Era de Peixes desloca a ação do Oriente para a Europa. O Cristianismo nasce junto com a Era de Peixes, e grande parte dos fatos estão relacionados com ele: desde a perseguição dos primeiros cristãos até o momento em que a Igreja Católica angaria um poder incalculável. Durante a Idade Média, a Igreja controla toda e qualquer forma de conhecimento, e seus preceitos exercem uma inflexível influência sobre as pessoas. É o auge da força da crença (Peixes), em que a ameaça não é tomar algo real da pessoa ou exercer outra forma de punição, e sim, condená-la a queimar eternamente no fogo do inferno (ativando a natureza impressionável inerente à Peixes). Porém, são os interesses mundanos (reflexos de Virgem, signo da Terra, de natureza material) que movem a venda de perdões (as chamadas ‘indulgências’) e outras benesses celestiais.

 A Era de Peixes também conhece as cruzadas religiosas, as ‘guerras santas’, e, igualmente, o trabalho dos jesuítas na difusão da sua religião. Ela é marcada por por um intenso fervor religioso. A filosofia da Era de Peixes (ainda que muitas vezes aplicada de maneira inteiramente distorcida) é a necessidade de redenção, salvação, superação da matéria e devoção a um ideal. O signo de Virgem, oposto a Peixes, também se manifesta nesta Era, quando traz o desenvolvimento da ciência, bem como os subprodutos disso, como o racionalismo excessivo, o ceticismo e o descarte de qualquer coisa que não possa ser comprovada e classificada nos moldes conhecidos. Virgem é também o signo ligado ao corpo, ao orgânico, ao animal, ao vegetal, e nunca a Terra, como um grande organismo, é tão ameaçada, ao mesmo tempo em que nunca o ser humano vai tão longe em sua capacidade de desvendar meticulosamente (Virgem) como cada parte do mundo funciona. Virgem é também o signo da manipulação e intervenção, e a Era de Peixes traz uma possibilidade sem precedentes de modificação do ambiente físico. De muitas maneiras, utilizamos mal esta possibilidade, dizimando espécies animais e vegetais, poluindo o planeta, e também criando um estilo de vida desvinculado de ritmos naturais, em que o endeusamento do trabalho (um dos temas de Virgem) e da vida produtiva em excessivo (gerando doenças físicas e psicológicas). Por outro lado, desenvolvemos remédios e soluções inovadores. Criamos inventos que nos abriram possibilidades. Hoje nós temos inúmeros confortos e facilidades graças ao interesse virginiano por soluções práticas.

 A era Peixes-Virgem contém uma profunda necessidade de significado, mesmo que, em muitos momentos, isto fique obliterado pela manipulação religiosa (Peixes) ou pelo materialismo (Virgem). Vivemos, no final da Era de Peixes, o chamado para a Era de Aquário. O desenvolvimento científico se acelera. Começam a surgir religiões e sistemas de crença mais baseados na força da mente e na crença de que também podemos ser deuses (um modo aquariano de pensar). Há um forte desejo por resolvermos nossas diferenças e sermos mais tolerantes e abertos, e por nos libertarmos de velhos condicionamentos que nos acompanham há milênios. Por outro lado, pensadores começam a imaginar um futuro feito por uma racionalidade tão fria que poderia simbolizar a ‘sombra’ de Aquário. Um mundo em que um sistema social fosse tão rigidamente organizado em prol do conjunto que chips fossem implantados no cérebro das pessoas, anulando suas vontades individuais e criatividade (as quais são simbolizadas pelo signo de Leão, oposto a Aquário). Um mundo com tanto poder de intervenção que praticamente poderíamos ‘fabricar’ um ser humano ao nosso gosto (com todos os perigos que isto embute). Um mundo em que a tecnologia (Aquário) fosse tão dominante que isto pudesse abrir espaço para terríveis formas de controle e centralização (reflexo de Leão), com a sufocação da liberdade (uma das necessidades aquarianas mais fortes).

 Na realidade, em todas as Eras houve dificuldade em se equilibrar os dois signos envolvidos. A humanidade passou boa parte da Era de Peixes tendo sua capacidade de análise e discernimento (simbolizada por Virgem) bloqueada por crenças impostas de cima para baixo. Quando, a partir do século XIX, o espírito científico começou a se desenvolver, daí foi Virgem que assumiu a supremacia. Descartou-se tudo o que não se podia explicar e iniciou-se um período de excessiva racionalidade e fragmentação, que resultou no surgimento em massa de doenças emocionais decorrentes da falta de conexão com algo maior (por que você acha que tantas pessoas se drogam no mundo?). 

 A Era de Aquário não é, portanto, uma Era que automaticamente vai nos conduzir a fraternidade, a um entendimento extraordinário de quem somos e do que o mundo é, a uma nova forma de organização, a uma descoberta sem precedentes de nosso poder mental e a um uso adequado dele. E por que não? Porque Aquário não é um signo melhor do que Peixes, assim como Peixes não é melhor do que Áries, assim como nenhum signo é melhor do que outro. Em cada Era, nós temos escolhas a fazer. A tecnologia, principal promessa da Era de Aquário, tanto pode nos levar a uma separação do nosso lado instintivo, tornando tudo excessivamente lógico e frio, como pode ser tão aperfeiçoada que nos leve a sanar os problemas que até agora criamos com o uso dela. A penetrante mente aquariana tanto pode nos levar a finalmente rompermos com antigos comportamentos danosos quanto nos trazer agitação, alienação e rebelião, sintomas já presentes atualmente. A Era de Aquário será, sem dúvida, caracterizada por uma grande mudança em relação às outras Eras, porque isto faz parte do símbolo de Aquário. Mas isto nos levará a um mundo realmente melhor? Afinal, quem tem razão: os intelectuais que prevêem um mundo frio, excessivamente racional e controlado, ou os místicos que falam em uma era de amor?

 O potencial da Era de Aquário seria para que nos víssemos como uma só raça (já que até agora nosso passatempo foi nos aniquilarmos mutuamente), e, a partir disso, nos uníssemos, sendo capazes, por esta razão, de avanços inimagináveis, e de criarmos um novo sistema de vida, que rompesse integralmente com o que de negativo vivemos até aqui. Uma Era de Aquário realmente avançada também não descartaria que viéssemos a realizar um intercâmbio com outros habitantes de outros planetas, seja através do desenvolvimento de tecnologias revolucionárias, seja porque finalmente estaríamos prontos para isto. Uma Era de Aquário ‘bem feita’ teria de ter presente os atributos positivos de Leão, como a valorização do indivíduo e da criatividade, do coração e do calor, para que a sociedade não se tornasse por demais fria, mecânica e lógica. O bem estar do indivíduo (Leão) teria de ser levado em consideração tanto quanto o bem estar do grupo (Aquário), pois um não pode predominar sobre o outro sem que isto gere desequilíbrios. Só que a Era de Aquário não vai trazer tudo isto ‘de bandeja’. Nós teremos de conquistar esta ‘promessa’ positiva que está embutida nela. Estaremos sendo chamados a escolher tanto quanto fomos em outras Eras. Por exemplo, a Era de Peixes poderia ter sido muito especial em termos de compaixão, abrandamento de nossas características mais destrutivas e agressivas, e não o foi. Ao invés disso, apareceu o lado negativo de Peixes, como a cegueira, a incompreensão e a histeria (as Santas Inquisições, por exemplo).

 Você talvez se pergunte o que pode fazer, como indivíduo, para que possamos realmente começar uma nova Era, um novo tempo, transpondo para o coletivo o potencial que já existe em indivíduos mais evoluídos, mas que nunca existiu em escala maior.  Simplesmente desenvolva o lado positivo de Aquário. Olhe mais para o coletivo. Interesse-se mais por ele. Não veja a sua vida como limitada apenas a sua casa e às pessoas próximas. Enquanto houver pessoas miseráveis e escravizadas no mundo mesmo o mais lindo recanto com a maior harmonia poderá ser atingido. Aquário quer dizer que todos somos um povo só. A hora em que nos virmos como o povo da Terra, que é por ela responsável, aí sim estaremos entrando em uma nova Era. Sem o desenvolvimento disso, a Era de Aquário será como todas as outras, até que resolvamos mudar. A escolha será de cada um de nós.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

INDÍGENAS EM MINAS GERAIS





Não existe uma constatação segura a respeito da origem dos grupos indígenas de Minas Gerais. Mas segundo estudiosos, etnicamente, a maioria das tribos indígenas mineiras liga-se ao grupo Gê ou Tapuia. A este grupo pertencem os Aimorés e os Botocudos, estes subdivididos em tribos de Arañas, Giporoques, Potes, dentre outras. Os Aimorés habitavam as terras limítrofes de Minas, Espírito Santo e Bahia.

 Segundos estudiosos, os Botocudos viviam no litoral, mas foram expulsos pelos índios Tupis, indo para o interior. No século XVII inicia-se inimizade entre Botocudos e Portugueses, o que provoca grande massacre de tribos que viviam em Porto Seguro, Ilhéus, Espírito Santo, norte e nordeste de Minas. As tribos que sobreviveram foram expulsas para o norte e nordeste do país. No caso dos Botocudos foram para os Vales dos rios Jequitinhonha, Rio Doce, Mucuri e São Mateus.

 Os Botocudos eram índios ferozes que viviam em guerras constantes com outras tribos indígenas e com brancos invasores de suas terras. Há suspeitas de que algumas tribos eram canibais.

OPRESSÃO AOS ÍNDIOS

No Alto Jequitinhonha, região de Serro e Diamantina, onde predominava a mineração, os índios eram destruídos, como bem ilustra a novela "Acaiaca" de Joaquim Felício dos Santos, publicada em 1868, quando não podiam ser aldeados para fins de trabalho escravo.

No Médio e no Baixo Jequitinhonha os índios conseguiram refúgio por mais um tempo, através de condições geográficas e pastoris favoráveis, que facilitavam a sua resistência contra as agressões dos aventureiros e caçadores.

Mas no Médio Jequitinhonha nos primórdios do século XIX as autoridades determinam guerra aos indígenas através da carta régia de 13 de maio de 1808. Esse documento justifica "A guerra como justa" levando em conta as agressões indígenas aos colonizadores. A guerra, segundo a carta régia só deveria ter fim enquanto não fosse ocupada toda a região e patenteada a superioridade dos brancos. (MORENO, 2001; 62).


ÍNDIOS ARAÑAS




Os Aranãs, juntamente com os Nacnanucs, Pojichás, Jiporoques, Potés e outros, são tribos do grupo dos Botocudos. Os Aranãs habitaram os vales dos rios Urupuca, Surubim e Itambacuri, região atualmente formada pelos municípios de Água Boa, Malacacheta e Itambacuri.



Os Aranãs eram uma tribo considerada atrasada, sendo considerada extinta no final do século XIX. Até 1.862, eram oficialmente assentados às margens do Córrego Aranã, afluente do Urupuca. Em 1.873, consta que existiam alguns representantes dessa tribo juntamente a outros silvícolas catequizados no aldeamento de Itambacuri pelos capuchinhos Frei Serafim e Frei Ângelo. Até o final da década de 1.920 encontrava-se índios puros da tribo Aranã em Itambacuri. Atualmente seus legítimos descendentes residem nos municípios de Araçuaí, Coronel Murta, Virgem da Lapa, Ponto dos Volantes, Belo Horizonte, Juatuba, Itinga, Pará de Minas e São Paulo.
De acordo com o professor, natural de Malacacheta e residente em Capelinha, José Carlos Machado, "com a ferocidade do sangue botocudo nas veias, os Aranãs expulsaram as tribos mais mansas do Urupuca e Surubim e aí se estabeleceram. Mas não sobreviveram à luta com as tribos mais fortes na disputa por terras e alimentos. Além disso, o confronto com os colonos brancos e as doenças extinguiram completamente a tribo Aranãs."

O fato de a tribo Araña ter sido oficialmente apontada como extinta provocou atualmente sérios problemas para os seus descendentes. O grupo indígena antes conhecido pelas denominações Índio e Caboclo do Jequitinhonha iniciaram a uma busca pela sua identificação étnica  recentemente, datando do final da década de 1990. A preocupação começou após um grupo familiar da etnia Pankararu, originário de Pernambuco, ter migrado para a Fazenda Alagadiço, município de Coronel Murta, ocupando terra doada pela Diocese de Araçuaí, onde moram algumas famílias aranã.
O convívio com os indígenas de Pernambuco, que participavam do movimento e da luta pelos direitos indígenas, estimularam o desejo antigo do grupo de investigação sobre sua origem étnica.
Com isso o grupo começou a reivindicar ao Governo Federal o seu reconhecimento enquanto povo indígena Aranã.
Grande parte dos Aranã está na Fazenda Alagadiço. Alguns vivem do artesanato e da atividade agropecuária, e uma das marcas registradas dos indígenas é uma bebida de cor avermelhada, denominada "Xamego" (mistura à base de uma planta denominada "quiabinho").

MAXAKALI

Os índios Maxakali estão instalados no nordeste de Minas Gerais, entre os vales do Mucuri e Jequitinhonha. Estes são o símbolo da resistência entre os povos indígenas, visto que a mais de 200 anos de contato com os brancos resguardaram sua tradição. Ainda hoje, poucos índios falam o português, com o intuito de preservar sua língua.
As aldeias Maxakali ficam entre as cidades de Bertópolis e Santa Helena de Minas, e são divididas em duas áreas, a Água Boa e Pradinho, com área total de 5.293 hectares. Estes dois grupos são divididos em clãs, o dos Buenos, em Pradinho, e o da Noêmia, de Água Boa.
Os Maxakali enfrentam dificuldades decorrentes de sucessivas administrações autoritárias, o que se tem refletido nos graves problemas de embriagues, desajustes sociais e marginalização econômica. A Mata Atlântica que antigamente predominava na área Maxakali foi devastada por fazendeiros invasores, estando hoje coberta de capim. Outro problema é a resistência sistemática a casamentos interétnicos e a mudanças na organização social e no seu universo cultural.
Os Maxakali - palavra em língua desconhecida, aplicada pela primeira vez na área do rio Jequitinhonha - não podem ser identificados como um único grupo, mas como um conjunto de vários. A denominação decorre desses grupos se articularem politicamente como aliados e terem se aldeado conjuntamente, sobretudo após 1808, quando ocorreu a invasão sistemática de seus territórios e se ampliaram os conflitos com outros grupos, particularmente com os denominados Botocudos.


PANKARARU

O grupo familiar da etnia Pankararu, originário de Pernambuco (aldeia Brejo dos Padres, município de Tacaratu), vive na Fazenda Alagadiço, município de Coronel Murta. Eles ocupam uma terra doada pela Diocese de Araçuaí, onde moram algumas famílias Aranã.
Os Pankararu se espalharam por vários Estados brasileiros na década de 50, devido ao problema de seca, aos conflitos pela posse da terra e outras formas de agressão, resultado da construção da hidrelétrica de Itaparica no Rio São Francisco, que inundou a maioria das terras férteis da região.

O grupo familiar de Eugênio Cardoso da Silva e Benvinda Vieira migrou em busca de melhores condições de vida para Minas Gerais, onde durante quase 30 anos, conviveram com outros povos como os Krahô, Xerente, Karajá e Krenak, Pataxó. Com os Pataxó e os Krenak viveram durante 11 anos, estabelecendo laços  matrimoniais com estes.

Em 1994, participaram da Romaria dos Migrantes, no Vale do Jequitinhonha, e conseguiram sensibilizar a Diocese de Araçuaí externando o desejo de ter terra para desenvolverem sua vida. A Diocese de Araçuaí doou-lhes 60 hectares de terra pertencente à fazenda Alagadiço, para onde se mudaram em 12 de junho do mesmo ano.

Construíram no local a aldeia Apukaré, onde se dedicaram à agricultura e ao artesanato. Participaram de eventos culturais no Vale do Jequitinhonha, de cursos para facilitar seu processo de fixação naquela área, assim como de eventos promovidos pelo movimento indígena e movimentos populares, em nível estadual e nacional.

A fabricação de artesanatos são usadas tanto para enfeite pessoal, principalmente no momento do Toré e demais cerimônias, como para comercialização como meio de angariar recursos para sua subsistência. Na agricultura são produzidos principalmente feijão, milho e mandioca. Criam animais de pequeno porte como porcos e galinhas.

O grupo possui uma importante a cultura do Toré (dança religiosa), comum nas culturas indígenas do nordeste. Nesta dança são utilizados instrumentos como o maracá, as flautas e o apito de rabo de tatu. As mulheres, na cultura Pankararu, não participam da dança, tendo a função de canto.

Os Pankararu utilizam uma vestimenta confeccionada através de uma planta denominada croá para sua dança. Quem dança o Toré são os Praiás, entidades sagradas, seres encantados. Nas aldeias Pankararu há um lugar especial para essas entidades se prepararem para a dança. Esse lugar é denominado Poro e fica localizado no meio da mata.

Os Praiás são inúmeros. Cada um possui seu canto e sua história. O nome dado à aldeia (Apukaré) é o nome de um Praiá, que protege a caminhada do grupo de Eugênio e Benvinda.

Os Pankararu não vêm problemas em Ser católico e possuir uma crença indígena simultaneamente. O sincretismo religioso compõe sua realidade, da mesma forma que compõe a realidade de grande parte das populações indígenas no país. Acreditar em Deus e nos Praias, participar do ritual do batismo na igreja católica e realizar o ritual do “Menino no Rancho”, rezar o Pai Nosso e cantar para os Praiás é a forma dos Pankararu perceberem e compreenderem o mundo.

Com uma cultura muito marcante pelos cantos, danças, indumentária, festas e pinturas corporais, os Pankararu têm constituído um estímulo a outros grupos descendentes de indígenas no Vale do Jequitinhonha, no sentido de resgatarem sua origem e história, como vem ocorrendo com o povo Aranã.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

POVOS DOS ANDES CENTRAIS

                                    

Pré-história


              As datas mais antigas dos Andes centrais estão por volta de 12.000 a.C. Os vestígios dos primeiros povoadores não ficam abaixo dos 2.500 metros de altitude (Ossio 1992: 31). Há uma tendência dos estudiosos atuais em admitir uma complexificação das sociedades andinas antes mesmo de disporem de agricultura. As primeiras plantas cultivadas a chegarem ao Peru foram as cabaças, entre 3.600 e 2.500 a.C. O algodão se cultiva por volta de 3.600 a.C. (Ossio 1992: 38). A domesticação de camélidas se dá entre 4.000 e 3.500 a.C. (Ossio 1992: 38).

              Depois desses inícios, vêm os períodos mais "clássicos", cuja distinção se iniciou com Julio de Tello. Aproveitando o resumo de Ossio (1992: 23-73), e acrescentando alguns acontecimentos mais conhecidos da história "universal", podemos fazer um quadro de correspondências cronológicas entre a região andina e a Europa.


Línguas


              As línguas indígenas mais importantes nesta vasta área são o quíchua e o aimara. Há, porém, falantes de línguas mais localizadas, como o jacáru e o cáuqui, ouvidas nas serranias próximas de Lima e, tal como o aimara, pertencentes à família jáqui. E ainda existe a língua puquina, falada pelos urus. O aimara e as outras duas línguas da mesma família parecem ter tido uma extensão geográfica muito maior antes da expansão do império incaico, sendo que o primeiro chegou até a ser língua comercial  no período Uári. Posteriormente perdeu terreno para o quíchua, que continuou a se expandir mesmo depois da queda do império inca. A língua dos urus, por sua vez, cedeu espaço ao aimara na sua expansão pré-colombiana para o sul.

              Quanto ao quíchua, conforme mapa e esquema apresentado no livro de Ossio (1992: 244 e 248), nota-se que o dialeto falado em Cusco é também de Ayacucho (Peru), da Bolívia e da Argentina; o dialeto mais próximo deste é usado nos departamentos peruanos de Amazonas, San Martín e Loreto e ainda no Equador e na Colômbia. Ou seja, o quíchua falado no centro do império inca também era o dos seus extremos. Outros ramos desse Quíchua II são falados em lugares cujos nomes não são familiares a um não-peruano (logo, não os sabemos localizar bem), a não ser Cajamarca, que também não ficava no centro do império. Por sua vez, os dialetos do Quíchua I são falados nos vales serranos mais próximos de Lima (Callejón de Huaylas, Mantaro). Infelizmente o autor não integra a informação que oferece nos citados mapa e esquema com a enumeração de grupos étnicos não-andinos (Ossio 1992: 245-246), onde estão indicados outros grupos falantes de quíchua.


Os pisos ecológicos


              Um dos aspectos importantes a considerar é que a presença da cordilheira dos Andes propicia a existência de diferentes climas, e possibilidades de exploração de distintos ambientes, conforme a altitude. Por exemplo, na fronteira Peru-Bolívia, o limite inferior do gelo fica a 5.200 metros e o limite superior da possibilidade de agricultura está a 4.000 metros (Palacios Ríos, org., 1988: 134-135). Como os Andes têm uma orientação geral norte-sul, isso significa que tais limites crescem em altitude conforme decresce a latitude. Por exemplo, no noroeste da Argentina, a altitude de 3.200 metros já marca a zona acima da qual escasseiam as possibilidades agrícolas (Madrazo 1991: 193). Distinguem-se assim certas faixas de altitude (ou pisos) com denominações especiais que, parece, variam regionalmente. Desse modo, o que se chama "puna" no Peru, na Bolívia e na Argentina, área de pastoreio e de caça, imprópria à agricultura, seria o mesmo que na Colômbia se chama de "páramo". Salvo engano, a puna, além da altitude, também se caracteriza por ser um planalto.

              John Murra, através do estudo de documentos históricos, foi o primeiro a chamar a atenção para o fato de que, desde a época pré-incaica, as comunidades dos Andes centrais aproveitavam as possibilidades dos vários pisos ecológicos através da criação de colônias em cada um deles. As plantações de coca ficavam nos níveis mais baixos; o milho, um pouco mais acima; a batata(-"inglesa"), junto aos limites superiores das possibilidades agrícolas; acima deste, o pastoreio de lhamas e alpacas. Teriam sido as disposições do primeiro vice‑rei espanhol, Toledo, que haveriam de impedir essa maneira de explorar os vários pisos, sobretudo com as reduções, isto é, a concentração da população indígena em comunidades maiores, de modo a facilitar a catequese, a administração e o recrutamento dos índios para o trabalho. Mas, a julgar por outros autores, os indígenas teriam encontrado formas, baseados nas relações pessoais e de parentesco, de, pelo menos em alguns lugares, continuarem a se valer dos vários pisos.




Castas?


              Por um lado, o governo colonial imobilizou os índios nas comunidades sujeitas ou não a encomiendas, incluídas ou não em haciendas, que deviam trabalho gratuito para o encomendero, o hacendado ou a administração pública. Por outro lado favoreceu sua dispersão através da obrigação da mita, o trabalho temporário nas minas de prata Potosi ou nas jazidas de mercúrio de Huancavelica. O descontrole provocado pela queda do império inca também levou ao crescimento do número de yanas ou yanaconas, índios rurais e urbanos desvinculados das comunidades e das encomiendas e não obrigados à mita.

              É curioso notar como certas instituições pré-incaicas são reformuladas pelos incas, e as incaicas, por sua vez, pelos espanhóis. Assim, as populações ditas mitimas, transferidas pelos incas, lembram as colônias das antigas comunidades; o trabalho temporário feito fora das terras agrícolas familiares para o governo inca, chamado mita (serviço militar, abertura de estradas, construção de edifícios públicos), se transforma no trabalho nas minas do período espanhol; os yanas, dedicados a trabalhos para a administração incaica e desvinculados permanentemente das fainas agrícolas familiares, transformam-se na população indígena colonial desligada das comunidades de origem.

              E assim foi-se formando uma sociedade algo semelhante às de castas, com a) uma camada superior constituída de espanhóis, "crédulos" (descendentes de espanhóis nascidos na América) e, até as rebeliões indígenas do final do século XVIII, pela nobreza indígena, e que, após a independência dos novos estados americanos, se reduziu aos "crédulos", conhecidos como mistis pelos índios; b) uma camada de "mestizos" ou "chollos"; e c) uma camada, a mais inferior, de índios, que a si mesmos preferem chamar de "naturales". Tais camadas não se distinguiriam tanto pela composição racial, mas principalmente por suas atividades: os mistis como proprietários e grandes funcionários; os índios como camponeses; os mestiços como comerciantes entre as outras duas camadas. Cada camada estaria muito atenta contra a subida de indivíduos da imediatamente inferior. O próprio vestuário era usado como um indicador de pertencimento a uma delas. Quando os índios da comunidade de Sicaya abandonaram seu vestuário tradicional, corriam o risco de serem desnudados nas ruas, principalmente as mulheres, pelos mestiços (Arguedas 1977: 122).

              A independência dos países americanos pouco ou nada representou para os índios andinos. O trabalho gratuito e o imposto indígena continuou e foi a principal fonte de receita dos governos até meados do século XIX, quando a exportação de minerais ou de guano passou a contribuição indígena para segundo plano. Mas aí surge um novo problema para os índios, que é a expansão das haciendas sobre as terras das suas comunidades, favorecida por uma ideologia racista e uma legislação voltada a esse propósito. Na Bolívia os índios só tiveram o reconhecimento de seu direito à terra a partir da revolução de 9 de abril de 1952, que foi seguida da reforma agrária de 1953. Os índios peruanos tiveram de esperar mais tempo, pelo movimento militar de 1968, que levou à reforma agrária de 1970.





terça-feira, 5 de abril de 2011

The Last Of The Mohicans


Os moicanos (em inglês mahican ou mohican) são um povo indígena dos Estados Unidos da América que vivia em torno do vale do rio Hudson, na época de seu primeiro contato com os europeus, em 1609. Nos séculos seguintes, tensões surgiram entre os moicanos e os mohawks, assim como com os europeus, fazendo com que os moicanos migrassem mais para o leste. Muitos estabeleceram-se no que eventualmente viria a ser a cidade de Stockbridge, no estado de Massachusetts. Por essa razão, esse grupo também é conhecido como os índios Stockbridge.

Moicanos. O título de um romance muito conhecido, O Último dos Moicanos, sugere seu completo desaparecimento, o que é desmentido pelo bastante instrutivo site “The Mohegan Tribe” (MT), mantido pelos moicanos do estado do Connecticut.
Estão na margem direita do baixo curso do rio Thames. Seu antigo território é lembrado por alguns lugares históricos cuja propriedade detêm: um antigo cemitério na cidade de Norvich; Shantok, um lugar onde desembarcaram nesse território e onde derrotaram os narraganset; um templo onde instalaram a Igreja Moicana, no século XIX, para evitar serem transferidos para oeste, provando serem índios cristãos e civilizados, como lhes era exigido; Fort Hill, lugar de muitas pedras de uma sua antiga fortificação; o Museu Tantaquidgeon, o mais antigo museu dirigido por índios, criado em 1931; a rocha Cochegan, a maior pedra solta da Nova Inglaterra, onde os moicanos em assembléia decidiram fazer uma aliança com os brancos.
A Nação Tribal Moicana foi reconhecida pelo governo federal norte-americano em 1994, e se organiza segundo uma constituição própria. Tem um conselho tribal de nove membros, um conselho de anciãos de sete membros; e dois tribunais com competências distintas: um para suas questões internas e outro para aquelas relacionadas com o jogo de azar. Diferentes departamentos administrativos cuidam dos serviços a polícia, educação, saúde, atletismo etc.
Ainda têm líderes como a Mulher Medicina e Historiadora Tribal e o Portador do Cachimbo. A nação tem cerca de 1.700 membros; segundo sua constituição, são membros aqueles que podem traçar sua ancestralidade até a lista tribal de 1861 e que permaneceram envolvidos em atividades tribais.
São-lhes reconhecidos 283 hectares de terras como reserva, embora o site não informe onde está situada, ou se é simplesmente a soma das superfícies dos lugares de importância histórica e o local onde se ergue o cassino Mohegan Sun, que é sua maior fonte de renda, a ponto de devolverem total ou parcialmente a soma da assistência federal a que fazem jus como índios em favor de outros indígenas. O cassino é também um grande contribuinte para a receita do estado de Connecticut.
O site faz constantes referências a Uncas, o líder dos moicanos, que aliou-se aos colonizadores no século XVII. Aliás, o próprio lugar em que se ergue o cassino tem o nome de Uncasville. O nome Uncas foi também o escolhido por Cooper para o personagem que morre no fim do seu romance como o último guerreiro dos moicanos (ainda que ele dê a “moicano” um sentido mais amplo, que abrange outros índios da costa, como os delawares).

sábado, 2 de abril de 2011

MUSICAS INDIGENAS E CELTAS: CARTA DO CHEFE SEATTLE (CACIQUE SEATHL) AO PRESIDE...

MUSICAS INDIGENAS E CELTAS: CARTA DO CHEFE SEATTLE (CACIQUE SEATHL) AO PRESIDE...: "Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce..."

CARTA DO CHEFE SEATTLE (CACIQUE SEATHL) AO PRESIDENTE AMERICANO FRANCIS PIERCE


Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade.

O texto a seguir pode ser considerado como um dos primeiros registros ecológicos sobre os quais se tem referência. Na carta, estão explícitas as noções de interdependência entre o Homem e a Natureza, ou melhor ainda, a percepção de que não somos algo distinto desta. Uma lição eterna, que não pode jamais ser esquecida.

A Carta:

"O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa da nossa amizade. Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas - elas nunca empalidecem. Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo. Cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho. O homem branco esquece a sua terra natal, quando, depois de morto vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos das campinas, o calor que emana do corpo de um mustang, o homem - todos pertencem à mesma família. Portanto quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O Grande Chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, não. Porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendemos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar da água é a voz do pai de meu pai. Os rios são irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas cargas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mais sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mão - a terra, e seu irmão - o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante.

Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto: Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende. Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende. O barulho parece insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo o pinheiro. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem. O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe seu último suspiro. E se te vendermos a nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado coma fragrância das flores campestres.

Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: O homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que nós, os índios, matamos apenas para o sustento de nossa vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si. Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de teus pés são as cinzas de nossos antepassados. Para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios. De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama de vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Mas nós vamos considerar a vossa oferta e ir para a reserva que destinais ao meu povo. Viveremos à parte e em paz. Que nos importa o lugar onde passarem os o resto dos nossos dias? Já não serão muitos. Ainda algumas horas, alguns invernos e não restará qualquer dos filhos das grandes tribos que viveram outrora nestas terras, ou que vagueiam ainda nas florestas. Nenhum estará cá para chorar as sepulturas de um povo tão poderoso e tão cheio de esperança como o vosso. Mas porque chorar o fim do meu povo? As tribos são constituídas por homens e nada mais. E os homens vão e vêm como as vagas do mar.

Nem o próprio homem branco pode escapar ao destino comum. Apesar de tudo talvez sejamos irmãos, veremos. Mas, nós sabemos uma coisa, que o homem branco talvez venha a descobrir um dia, o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é o Deus dos homens e a Sua misericórdia é a mesma para o homem de pele vermelha e para o homem branco. A terra é preciosa aos olhos de Deus e quem ofende a terra cobre o seu criador de desprezo. O homem branco perecerá também e, quem sabe, antes de outras tribos. Continuem a macular o vosso leito e irão sufocar nos vossos desperdícios.

Mas na vossa perdição brilhareis em chamas ofuscantes acendidas pelo poder de Deus que vos conduziu e que, por desígnios só por Ele conhecidos, vos deu poder sobre estas terras e sobre o homem de pele vermelha. Este destino é para nós um mistério. Não o compreendemos quando os búfalos são massacrados, os cavalos selvagens subjugados, os recantos secretos das florestas ficam impregnados do odor de muitos homens e as colinas desfiguradas pelos fios falantes. Onde está a floresta virgem? Desapareceu. Onde está a águia? Morreu. Qual o significado de abandonar os pôneis e a caça? É parar de viver e começar a vegetar.

É nestas condições que vamos considerar a oferta da compra das nossas terras. E se aceitarmos será apenas para ficarmos seguros de recebermos a reserva que nos prometeram. Talvez aí possamos acabar os nossos dias e quando o último homem de pele vermelha tiver desaparecido desta terra, e a sua recordação não for mais do que a sombra de uma núvem deslizando na pradaria, estes lugares e estas florestas abrigarão ainda os espíritos do meu povo. Assim se vendermos as nossas terras amai-as como as temos amado e cuidai delas como nós cuidámos. E com toda a vossa força e o vosso poder conservem-na para os teus filhos e amem-na como Deus nos ama a todos.

Sabemos uma coisa: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele ama esta terra. O próprio homem branco não pode fugir ao mesmo destino. Talvez sejamos irmãos, veremos."
Tags:carta-chefe-seattle-cacique-seathl-sociedade-saúde da sociedade-branco-filhos-irmãos-pele-vermelha-animais-selvagem-homens-washington-Natureza-Duwamish-Pierce-mensagem-respeito-sustentabilidade-ecologia